O poder de transformação da Macrobiótica em tempo de grandes mudanças debatido em conferência internacional

O evento realiza-se entre 20 e 22 de outubro no Instituto Makronova em Zagreb, capital da Croácia, e inclui um dia de trabalho de campo na Quinta de Agricultura Biológica Zrno
VIRGÍLIO AZEVEDO
O poder de transformação da filosofia e da prática macrobióticas é o tema central da Conferência Macrobiótica Internacional de 2026, que se vai realizar entre os dias 20 e 22 de outubro no Instituto Makronova em Zagreb, capital da Croácia (ver em https://www.macrobioticsinternational.com/international-conference/imc-2026/ e em http://makronova.com). Num tempo de profundas mudanças globais e desafios, a filosofia macrobiótica oferece conhecimento prático para viver com clareza, equilíbrio e propósito”, afirmam os organizadores da conferência, que é “um convite para reconectar o pensamento, a saúde e a alimentação como um caminho integrado em direção à vitalidade pessoal e coletiva”. E juntos “vamos explorar como princípios intemporais podem inspirar ações significativas no Mundo de hoje”.
Nos três dias do evento serão debatidos três temas principais: “A Filosofia da Macrobiótica – Como Pensar e Viver com Vitalidade”, “Abordagem Holística da Saúde: O que Aprendemos Até Agora” e “Agricultura Biológica: o Regresso à Essência”. Este último tema, onde estará em destaque a agricultura regenerativa, será abordado em termos muito práticos na Quinta de Agricultura Biológica Zrno, uma quinta pioneira que é parceira do Instituto Makronova (ver em https://themarketgardener.com/school-farms/zrno-organic-farm-makronova-institute/).
Serão ainda discutidas questões tão atuais como “O Yin-Yang como ferramenta para compreender a complexidade”, “A resiliência, o equilíbrio e a vitalidade em tempo de múltiplas crises”, “A Macrobiótica e a saúde mental/emocional”, “A integração da Macrobiótica com a ciência moderna”, “Abordagens individuais (não há uma dieta para todos)” ou “Onde é que a Macrobiótica precisa de evoluir?”. Entre os oradores há duas professoras e consultoras portuguesas: Sónia Jordão, que falará sobre “Macro Prazer – Uma ferramenta poderosa que gera o Ki”, e Ana Luísa Bolsa, que abordará o tema “Macrobiótica: O que estamos a levar para o futuro”. A Comissão da Conferência Macrobiótica Internacional integra também outra professora e consultora portuguesa: Rosalina Silva.
Simon Brown: “Uma nova Macrobiótica para o século XXI”
A conferência de Zagreb decorre numa altura em que está em discussão a proposta “Macrobiótica Integral: um novo conceito para alargar a prática a áreas negligenciadas no passado”, de Lenny Jacobs, Simon Brown, Melanie Waxman Brown e Bob Ligon, publicada precisamente há um ano na revista “Macrobiotics Today” de outono de 2025 (ver notícia em https://www.3pilares.blog/post/a-nova-visão-da-macrobiótica-integral).

Simon Brown conta que as pessoas da comunidade macrobiótica com que tem falado “concordam com o essencial da nossa proposta, que é a abordagem holística abrangente da vida, incluindo todos os aspetos da saúde. Algumas pessoas questionam porque usamos a palavra integral e não falamos simplesmente de Macrobiótica. Pessoalmente, penso que devemos mostrar que alguma coisa mudou no movimento macrobiótico. Depois do crescimento do movimento nos anos sessenta, setenta e oitenta do século passado houve uma mudança nos anos 90 e uma nova mudança desde então no século XXI”.
Para o professor e consultor, “a palavra Integral significa que estamos a falar da Macrobiótica dos anos 20 deste século, da atualidade. E sem esta palavra é muito confuso saber de que tipo de Macrobiótica estamos a falar”. A Macrobiótica dos anos 70 e 80 do século passado “era a de Michio Kushi e há múltiplas macrobióticas porque os professores usam diferentes bases para o que ensinam, o que é muito pouco claro”. Portanto, “precisamos de uma palavra para distinguir a Macrobiótica atual, nos anos 20 deste século. E para nós, que fizemos esta proposta, integral é uma boa palavra porque envolve tudo”.
Simon Brown sublinha que “algumas coisas da Macrobiótica do passado são definitivamente deixadas para trás, como a obsessão com a alimentação, que pode curar tudo. Aquilo que queremos levar para diante é abraçar coisas novas de que ninguém falava, como a atividade (exercício), a meditação, a espiritualidade. E combinarmos e integrarmos tudo”. Na Grécia Antiga, “o debate era como viver uma vida virtuosa, e precisamos um pouco desta ética na Macrobiótica, ou seja, temos de assegurar, como comunidade, que somos gentis, respeitáveis, úteis e solidários”.
O professor explica por que razão a Macrobiótica hoje não está a ter o sucesso que teve no passado. “No princípio a Macrobiótica não tinha sido testada nas pessoas, era uma ideia, fazia sentido para nós, tudo era novo. Se tu comesses bem, o sangue transformava-se, mudava a tua maneira de ser, etc. E estávamos muito entusiasmados com estas ideias, sentíamo-nos bem com a alimentação macrobiótica, era o espírito da época”. Mas quando as pessoas que aderiram no início “se tornaram mais velhas, parece que não fizeram as coisas muito bem. A prática, a experiência na vida real, não correspondeu às expectativas criadas com o que a Macrobiótica prometia em relação à saúde, e certas coisas não faziam muito sentido, como uma dieta demasiado restritiva ou muitas regras. Portanto, tornámos tudo muito difícil para as pessoas”. Daí “ter surgido agora esta proposta da Macrobiótica Integral, que está baseada no melhor dos últimos 80 anos da Macrobiótica”.
Michael Rossoff partilha a sua experiência com o cancro
A conferência de Zagreb acontece também quando está aberto o debate sobre os professores e consultores de Macrobiótica que tiveram cancro, nomeadamente os americanos (ver em https://www.3pilares.blog/post/o-mistério-americano). Phiya Kushi, um dos cinco filhos de Michio e Aveline Kushi, tem mesmo partilhado a sua experiência com a doença (um cancro colorretal) no site https://phiyascancerjourney.substack.com/.
E chegou agora a vez de Michael Rossoff (MichaelRossoff.com), professor e consultor norte-americano envolvido na Macrobiótica e na cura natural há mais de 55 anos, que o vai fazer numa palestra por Zoom sobre o tema “Cancro, Macrobiótica e Eu”, que é moderado por Lenny Jacobs e acontecerá às 9h de 25 de outubro, integrada no Macrobiotic Forum do The Macro Center de Israel (http://themacrocenter.com).
Michael Rossoff vai partilhar a sua experiência com o cancro renal que lhe foi diagnosticado em 2019, e na newsletter do The Macro Center que anuncia o evento, recorda que “muitos líderes e professores veteranos da Macrobiótica tiveram cancro. A maioria faleceu. Eram pessoas admiráveis, mas que acabaram vencidas pela doença”. E sublinha que quer compartilhar a sua própria história com o cancro, diagnosticado em 2019. “Vou relatar uma experiência muito pessoal sobre como identifiquei a doença antes mesmo de o meu médico acreditar em mim. Após vários exames, confirmou-se um cancro renal. Fui aconselhado a remover o rim rapidamente para evitar metástases. Explicarei por que aceitei passar por essa cirurgia de grande porte e o que aconteceu depois — inclusive o facto de o cancro acabar por se espalhar mesmo assim”.
E prossegue: “Igualmente importante, falarei sobre o meu histórico familiar de cancro, o papel que a genética pode ter desempenhado e os hábitos do meu estilo de vida que acredito terem contribuído para o surgimento da doença. Estou livre do cancro há quase cinco anos”. Rossoff acrescenta que também fará “uma discussão mais ampla sobre as razões que levaram tantas pessoas a abandonar a Macrobiótica, e por que razão alguns adeptos de longa data insistem rigidamente na ideia de que a Macrobiótica deveria prevenir todas as doenças”.
Entretanto, a conhecida professora e consultora norte-americana Ginat Rice, fundadora do The Macro Center de Israel, morreu de cancro aos 75 anos no passado dia 4 de setembro, noticiou o jornal “Jerusalem Post”. Recorde-se que lhe tinha sido diagnosticado um cancro no peito em 1999 e diabetes Tipo 1 em 2011. Ginat Rice estava muito ligada a Michael Rossoff, que considerava o seu principal conselheiro macrobiótico.




Este artigo de Vírgilio Azevedo, traz uma reflexão muito relevante e atual sobre o movimento macrobiótico. Nele reconheço a urgência de a Macrobiótica evoluir e libertar-se de dogmas do passado.
Como defende Simon Brown, rotular a prática como Integral ajuda a afastar a Macrobiótica da imagem rígida e obsessiva desenvolvida nas décadas de 70 e 80. A inclusão de aspetos como a atividade física, a saúde emocional, a meditação e a ética mostra que a saúde não depende exclusivamente do prato.
A partilha de experiências com o cancro por parte de veteranos desmistificam a ideia ingénua de que uma dieta restritiva é um escudo milagroso infalível. Regras inflexíveis e a promessa de curas absolutas afastaram muitas pessoas ao longo dos…