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O mistério americano


Por que razão vários professores importantes de Macrobiótica morreram de cancro e de outras doenças sobre as quais escreveram e orientaram muitos outros a recuperar? É uma questão controversa que nunca foi abertamente debatida no Movimento Macrobiótico, uma fatalidade que atingiu em especial os professores americanos, como Danny Waxman ou Herman Aihara, e a própria família Kushi: Michio, Aveline e uma filha do casal. Agora, outro filho, Phiya Kushi, revela que tem um cancro colorretal com metástase no fígado. E explica porquê.

 

Virgílio Azevedo

 

Phiya Kushi, conhecido divulgador e professor de Macrobiótica e um dos cinco filhos de Michio e Aveline Kushi, revelou recentemente que tem um cancro em Fase IV ou cancro metastático, o que significa que a doença se espalhou do órgão de origem para outras partes do corpo, através do sangue ou do sistema linfático, formando novos tumores ou metástases.

“Tal como vários heróis da Macrobiótica que tanto admiro e respeito, também eu estou perante uma doença terminal, um cancro em Fase IV”, conta Phiya Kushi na newsletter que regularmente envia aos seus seguidores. “O meu prognóstico é sombrio e preciso agora de passar pelo teste final, usando o meu discernimento e tomando as rédeas do meu destino. Estou a embarcar numa viagem verdadeiramente inesperada e vou partir para uma nova aventura. Mas, no final, sei que o maior desafio que enfrentarei serei eu próprio, com as minhas próprias dúvidas e limitações”.

Phiya Kushi:“Acredito que a Macrobiótica não se trata do que comemos, mas sim da forma como usamos o próprio discernimento para nos adaptarmos às circunstâncias em constante mudança”
Phiya Kushi:“Acredito que a Macrobiótica não se trata do que comemos, mas sim da forma como usamos o próprio discernimento para nos adaptarmos às circunstâncias em constante mudança”

Phiya explica que tem um cancro colorretal (no reto) com metástase no fígado, com prognóstico de 1 a 4 meses de vida sem quimioterapia e de 30 meses com tratamento. E sublinha: “Acredito que a Macrobiótica não se trata do que comemos, mas sim da forma como usamos o próprio discernimento para nos adaptarmos às circunstâncias em constante mudança”.

E refere que alguns “heróis da Macrobiótica” que o inspiraram foram George Ohsawa, que se curou da tuberculose, Sanae Suzuki, que se curou duas vezes do cancro, incluindo um cancro do fígado em Fase IV, Gayle Stolove, que se curou do cancro da mama e Dan Zofi, um sobrevivente de SIDA há 45 anos que está agora de perfeita saúde”.

Os familiares da sua companheira, Claire Johnson, criaram uma campanha no site GoFundMe para os ajudar financeiramente neste momento, porque Phyia Kushi não tem seguro de saúde e nos EUA não há um Serviço Nacional de Saúde como em Portugal e na Europa. A campanha pode ser vista em https://www.gofundme.com/f/support-claire-and-phiya-through-, this-tough-time


As contradições do Movimento Macrobiótico

O mais surpreendente é que Phiya Kushi publicou a 9 de janeiro de 2025 no seu site (https://phiya.substack.com) um artigo, divulgado posteriormente no blog “Os Três Pilares do Bem-Estar”, onde tentava precisamente “examinar as contradições” do Movimento Macrobiótico e explicar “por que razão vários professores importantes de Macrobiótica morreram de cancro e de outras doenças sobre as quais escreveram e orientaram muitos outros a recuperar”.

É, de facto, uma questão controversa que nunca foi verdadeiramente debatida no Movimento Macrobiótico, uma fatalidade que tem atingido em especial os professores americanos (Danny Waxman, Herman Aihara) e a própria família Kushi (Michio, Aveline e dois dos filhos do casal).

 “As pessoas que mais me inspiraram ao longo dos meus muitos anos a promover a Macrobiótica foram aquelas que recuperaram de experiências de quase-morte, incluindo doenças consideradas terminais e permanentemente debilitantes, recuperando a sua saúde e vitalidade pelos seus próprios esforços e contra todas as probabilidades”, salienta Phiya Kushi. Macrobiótica significa vida longa, pelo que, “a menos que alguém tenha vivido até uma idade avançada ou tenha sido capaz de transformar uma grande doença numa grande saúde, não pode realmente considerar-se um macrobiótico, independentemente da dieta ou estilo de vida que siga, na minha sincera opinião”.


A confissão de Phiya Kushi

“Até agora, nunca tive uma doença grave, nunca precisei dos serviços de um médico, nunca fui a um hospital e nunca gastei um tostão num seguro de saúde”, recorda Phiya Kushi. “Mesmo que pareça que tenho uma saúde impecável, sempre soube que estava a viver por um fio, dependendo da constituição física robusta que herdei dos meus pais”.

Tal como acontece com todos aqueles que vivem da grande constituição que herdaram, “chega um momento em que os excessos e os abusos contínuos corroem as forças que lhes foram generosamente concedidas, e finalmente sucumbem ao grande teste macrobiótico: será que conseguem, finalmente, tomar as rédeas do seu próprio destino? Esse momento chegou para mim”.

No artigo que publicou a 9 de janeiro de 2025, Phiya salientava que “as pessoas que olham para os professores macrobióticos que morreram de cancro e de outras doenças concentram-se na questão de como e porquê ficaram doentes, como se tais indivíduos nunca devessem ficar doentes”. É compreensível “que muitos dos que beneficiaram dos seus ensinamentos e orientação tenham vivido vidas relativamente livres de doenças, incluindo eu”. Mas quem os conheceu pessoalmente “sabe que nem sempre faziam o que sugeriam que os outros fizessem”. Com efeito, “alguns fumavam, bebiam café, bebidas alcoólicas e todos comiam fora em restaurantes, entregando-se muitas vezes a alimentos considerados extremos pelos padrões macrobióticos”.

Em qualquer outra situação, “as suas doenças e mortes seriam consideradas comuns, mas não para estes indivíduos que promoveram um modo de vida que prometia saúde e paz”. E não só, porque “ajudaram milhares de pessoas a recuperar de doenças, incluindo a mesma doença que tinham”. Então, porque é que não foram capazes de mudar “quando pareciam ter o conhecimento para o fazer?”


Porquê perdoar os inocentes, mas não os professores macrobióticos?

Nesse mesmo artigo, divulgado mais tarde no blog “Os Três Pilares do Bem-Estar”, Phiya Kushi alertava para um paradoxo surpreendente que se manifestava no Movimento Macrobiótico. Dizia o professor que “podemos perdoar aqueles que morreram de doenças porque ignoraram os seus próprios corpos e o impacto que os alimentos podem causar. São vítimas inocentes e lamentamos a sua perda”. Também podemos perdoar os médicos, “que não estão plenamente conscientes dos impactos da dieta e do estilo de vida, por não conseguirem curar-se e morrer”.

Sendo assim, “porque colocamos os professores macrobióticos numa categoria diferente de todos os outros? Parece que perdemos o sentido de objetividade quando olhamos para as suas mortes por doença”. Alguns críticos “parecem até divertir-se ao analisar a sua morte com alegria. Eles fumaram. Arranjaram desculpas para fumar. Comiam fora e viviam uma vida hipócrita de ‘faz o que eu digo e não faças o que eu faço’ (quando na verdade - pelo menos para Michio Kushi e George Ohsawa - era sempre ‘não faças o que eu digo nem faças o que eu faço, mas descobre por ti próprio’). Eram líderes de seitas que ensinavam uma filosofia e um modo de vida falhados. Enfim, as críticas são infinitas”.

Ao mesmo tempo, muitos dos que recuperaram com os ensinamentos macrobióticos, “embora não concordem com os críticos, também podem ficar intrigados, mas são gratos e perdoadores e veem estes professores macrobióticos simplesmente como um de nós”. Não questionam os ensinamentos “porque as suas próprias experiências de vida são uma prova viva de que funcionam”. Eles estão gratos. E, no entanto, “o próprio facto de terem recuperado de uma doença grave apenas aumenta a contradição da razão pela qual estes professores morreram”.

Portanto, para Phiya Kushi a verdadeira questão é: “Como poderiam estes professores macrobióticos ajudar tantas pessoas, mas não a si próprios? Não se trata do motivo pelo qual os professores macrobióticos ficaram doentes, mas sim do motivo pelo qual não melhoraram”.


A falta de vontade ou a incapacidade de mudar

O que estes professores macrobióticos consumiam e o facto de desfrutarem das suas indulgências e vícios pode explicar em grande parte porque ficaram doentes e o tipo de doenças que tiveram. “Mas isso não explica porque não mudaram ou não puderam mudar-se a si próprios. A razão pela qual não mudaram não tem nada a ver com o que consumiram. Não tem nada a ver com a filosofia em si, porque muitos recuperaram sob a sua orientação. A questão é porque é que as pessoas continuam conscientemente a fazer coisas em detrimento da sua própria saúde. Não é ignorância. As pessoas estão cientes dos potenciais danos e prejuízos que estão a causar a si próprias. Então, porque é que não mudam?”, questiona Phiya.

Phiya Kushi: "Salvo as situações de ignorância, as pessoas não mudam e morrem prematuramente de certas doenças crónicas porque as suas escolhas de vida são ditadas pelas suas emoções. E os professores macrobióticos não estão isentos destas influências emocionais”
Phiya Kushi: "Salvo as situações de ignorância, as pessoas não mudam e morrem prematuramente de certas doenças crónicas porque as suas escolhas de vida são ditadas pelas suas emoções. E os professores macrobióticos não estão isentos destas influências emocionais”

E dá uma resposta: as pessoas não mudam porque há algo mais que valorizam e que é de muito maior importância para elas, do qual não estão dispostas a desistir e preferem sofrer e morrer a mudar. “Esta situação não é exclusiva dos professores macrobióticos e aplica-se à maioria das pessoas que morrem de doenças crónicas como o cancro. Não por coincidência, a razão pela qual as pessoas optam por não fazer mudanças que alterem as suas vidas é, muitas vezes, a mesma pela qual outras pessoas procuram mudanças que alterem as suas vidas, que as tornem mais saudáveis ​​e recuperem de doenças. O que poderiam eles valorizar mais do que as suas próprias vidas?”


As pessoas valorizam mais o amor do que a vida

São os seus apegos emocionais às pessoas que amam. São os apegos que têm às suas próprias identidades e papéis emocionais que devem amar e ser amados. É acreditar que qualquer mudança drástica nas suas vidas significaria abdicar do amor que têm nas suas vidas. A sua relutância em mudar é o seu sacrifício por aqueles que amam. Não mudam e preferem sofrer e morrer a desistir desse amor.

Salvo as situações de ignorância, “as pessoas não mudam e morrem prematuramente de certas doenças crónicas porque as suas escolhas de vida são ditadas pelas suas emoções. E os professores macrobióticos não estão isentos destas influências emocionais”.


Críticas a Michio Kushi

Muitas pessoas estão zangadas com Michio Kushi “porque ele não preparou a sua vida para abordar e atender emocionalmente os seus seguidores”, constatava o seu filho. “O seu estilo de ensino era unilateral, com pouco envolvimento de outras pessoas. Influenciou muitos, mas ninguém o podia influenciar. Eles eram vulneráveis ​​a ele, mas ele não era vulnerável a eles. As pessoas adoravam o que ele estava a dizer e encontraram laços emocionais entre os seus colegas (estudantes). Mas quando as pessoas queriam retribuir e conectar-se emocionalmente com ele, eram rejeitadas por ele”.

Ou seja, Michio Kushi “dividiu nitidamente a sua vida entre a sua personalidade pública e uma vida privada protegida e nunca permitiu que se misturassem”. Isto frustrou muitos que esperavam e queriam um relacionamento recíproco com ele. “A raiva e o trauma surgiram naturalmente. Qualquer reconhecimento e amor que desejaram, mas nunca receberam dele, transformaram-se em culpas, críticas, acusações e traumas que se prolongam até hoje, dez anos após o seu falecimento”.


O amor é a razão pela qual as pessoas não mudam

“Quase toda a gente vive de acordo com as suas emoções e os professores macrobióticos não estavam nem estão isentos. Não mudaram porque o seu amor, apegos e identidades emocionais eram mais importantes para eles do que a mudança”, prosseguia Phiya Kushi. “Quando leio comentários sobre as doenças e mortes destes professores vejo amor. Surgem como apreciações e gratidão, mas também como críticas, frustrações, raiva, amargura, rejeição, acusações, análise excessiva, justificações, justiça e condenações. Está tudo ali, um guisado fervente de emoções intensas, todas alimentadas por um fogo, um amor ardente. O amor é a razão pela qual as pessoas não mudam e o amor é a razão pela qual as pessoas mudam. A doença que manifestam e a forma como recuperam depende do que escolhem colocar no seu corpo, que é diferente para cada pessoa, mas as motivações são as mesmas. Quase toda a gente faz isso por amor”.


Rik Vermuyten: “A prevenção torna as pessoas doentes, porque a energia é orientada para a doença, em vez de criar saúde”

Os professores de Macrobiótica que morreram de cancro e outras doenças “caíram numa série de armadilhas”, afirmava Rik Vermuyten numa entrevista dada ao blog “Os Três Pilares do Bem-Estar” em julho de 2025. O conhecido professor e consultor belga de Macrobiótica explicava que “a armadilha número 1 é que há muitos livros na Macrobiótica que falam na prevenção do cancro, das doenças cardiovasculares, etc. Ora se falamos de prevenção - a Medicina moderna está a seguir lentamente nessa direção - a orientação é ainda contra a doença. Mas se é assim, para onde vai a tua energia espiritual? Para a doença”. Tudo cresce, se origina e se expande com energia, “e se tu dás a tua energia à doença, mesmo com a ideia da prevenção, ela vai também para a doença. Se tu queres criar saúde, a tua energia deve ir para a saúde. Assim, há um grande erro: a prevenção torna as pessoas doentes, porque a energia é orientada para a doença, em vez de criar saúde!”

Rik Vermuyten: “Se quero criar alguma coisa, tenho de dar a minha energia àquilo que pretendo criar, e não àquilo que não pretendo criar! Porque se assim for, a resistência será muito forte e dá-nos mais e mais o que não queremos”
Rik Vermuyten: “Se quero criar alguma coisa, tenho de dar a minha energia àquilo que pretendo criar, e não àquilo que não pretendo criar! Porque se assim for, a resistência será muito forte e dá-nos mais e mais o que não queremos”

Isto significa que, se só tivermos uma alimentação Macrobiótica feita para pessoas doentes, podemos também ficar doentes. “Muita gente escolhe um sistema de alimentação Macrobiótico, vegetariano, vegan, etc., contra qualquer coisa. Temos um mecanismo psicológico que até os próprios psicólogos não compreendem, mas do ponto de vista do Yin-Yang, se tivermos resistência contra qualquer coisa, ou seja, se dermos a nossa energia àquilo a que resistimos, persiste ainda mais, ou seja, quanto mais estamos contra uma coisa mais a obtemos”. Só que este princípio psicológico “é raramente usado e compreendido”. No fundo devemos perguntar: ao que é que eu dou a minha energia? “Se quero criar alguma coisa, tenho de dar a minha energia àquilo que pretendo criar, e não àquilo que não pretendo criar! Porque se assim for, a resistência será muito forte e dá-nos mais e mais o que não queremos”.


Lidar com os sentimentos e as emoções

“Um sentimento vem de um pensamento, portanto temos de olhar para o que é o pensamento, qual é o efeito do pensamento”, salientava Rik Vermuyten na mesma entrevista. “É um efeito Yin ou Yang? Cria um sentimento Yin ou Yang? E a nossa mente é tão rápida que imediatamente faz uma interpretação do sentimento, que choca e decide a emoção, digamos assim”. A emoção “é o resultado da interpretação de um sentimento, porque se escolhermos um pensamento, podemos senti-lo e experienciá-lo completamente, e depois ter uma lição dele, tirar uma conclusão e então abandoná-lo”.

Nos cinco níveis mais elevados do estudo da vida (emocional, intelectual, social, ideológico e espiritual), o estudo do Yin-Yang no Movimento Macrobiótico “tem sido muito fraco, apesar de esses níveis corresponderem a 5/7 da realidade. Só que nunca foi pensado assim, é apenas levemente abordado aqui e ali. Nesse sentido, não é realmente da Macrobiótica que estamos a falar, porque temos de estudar o Yin-Yang nos sete níveis e não apenas em um ou dois, o que torna o estudo muito incompleto. Mas o funcionamento da saúde é completo, holístico. Estudando apenas dois níveis, não vai funcionar, é demasiado pequeno, é ter a mente pequena focarmo-nos apenas nos níveis físico e sensorial. Por isso não estou surpreendido que muitas pessoas tenham cancro. Era expectável”.

E se não soubermos o Yin-Yang muito bem, “também não percebemos o conceito das cinco transformações da Filosofia Oriental, os cinco estágios de mudança energética de todos os fenómenos naturais, incluindo o corpo humano - Árvore, Fogo, Solo, Metal e Água”, concluía Rik Vermuyen.

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