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Dulce Costa, fundadora da Escola Mil Grãos: “Ao vivermos no campo sentimos que a Natureza é generosa e abundante”

Virgílio Azevedo
há 9 horas
33 min de leitura

Foi professora durante 26 anos no Instituto Politécnico de Setúbal. E vivia numa casa de sonho num local bonito, o Golfe do Montado, em Palmela. Mas há três anos a sua vida deu uma volta radical: mudou-se com os três filhos (Madalena, Samuel e Lucas) e o marido (Hélder Rosa) para uma pequena casa em Fiais da Beira, uma aldeia do interior do país, no concelho de Oliveira do Hospital, a 300 km de Palmela. Com uma licenciatura, um mestrado e um doutoramento em Engenharia Eletrotécnica, Dulce Costa continuou a ensinar na sua nova vida, mas numa área bem distinta: a saúde e o bem-estar através da Macrobiótica. E criou a Comunidade Mil Grãos e uma escola virtual, a Escola de Saúde Integral Mil Grãos, onde dá consultas de orientação alimentar e de estilo de vida e orienta “workshops” de culinária macrobiótica. Em abril publicou o seu primeiro livro, “Cozinha que Cura – Como a Macrobiótica pode transformar a sua saúde, energia e vitalidade” (Porto Editora), que apresentou em eventos por todo o país, de Maia a Faro, e também no Canal V+ da TVI. Foi um sucesso: os 3000 exemplares da primeira edição já se esgotaram e o livro vai seguir para uma segunda edição de 2000 exemplares. Como escreve no prefácio Isabel Silva, comunicadora e fundadora do projeto DoBem (dobem.pt), “o talento inato e a profissão de professora universitária, dão-lhe o rigor e o estudo para ensinar”. E isso, “aliado ao conhecimento empírico e a toda a sua história de cura pela Macrobiótica”, faz com que a Escola Mil Grãos de Dulce Costa “inspire diariamente centenas de pessoas”.


VIRGÍLIO AZEVEDO 

    


UMA VIAGEM À ÍNDIA E À MEDICINA AYURVEDA 


Neste Verão fizeste um convite aos membros da Comunidade Mil Grãos para irem contigo à Índia, aos Centros Madukkakuzhy, para um retiro Ayurveda. Já lá tinhas estado antes, mas desta vez foi uma experiência coletiva onde conseguiste juntar 17 pessoas. Como correu esta experiência, este “investimento na saúde a vários níveis”, como tu escreves no teu site milgraos.com?


A Diana Chiu Batista e o seu marido Igor, da Macro Viagens – uma agência de turismo responsável, espiritual e cultural - convidaram-me para ir com a Isabel Silva (fundadora do site dobem.pt) experimentar os Centros Madukkakuzhy e divulgá-los se gostássemos. Não foi nenhum compromisso, não houve nenhum pagamento, foi só se quiséssemos divulgar, divulgávamos. Portanto, fiz esta experiência e foi realmente um local que me marcou. Nunca tive o sonho de ir à Índia e dizia a toda a gente que me conhece na minha nova vida que não tinha mais desejo de viajar porque já tinha viajado bastante, enquanto investigadora, para ir a conferências internacionais.


Quando já estava a terminar o doutoramento nasceu o meu filho Lucas e era muito bebé quando fui defender a tese. E tinha feito um pacto com os meus orientadores de doutoramento: não iria fazer publicações em conferências internacionais, iria só fazer em revistas, porque não queria viajar tendo um bebé e ainda outros dois filhos pequenos.

 Portanto, a Índia não me atraía nada por muitas razões, em especial não me atraía um país tão exótico. Das vezes que tinha viajado fui a países da Europa e também ao Canadá e EUA, que eu gostava, que tinham uma história com a qual eu me identificava mais, apesar de ter nascido em Angola, que tem também coisas mais exóticas ou diferentes.


Mas fiquei apaixonada pelo sul da Índia e pelas pessoas desta região. Na altura, em agosto de 2024, até escrevi um artigo no meu site Mil Grãos com o título “Índia olhos nos olhos”, porque uma das coisas que mais me marcou nos indianos é que enquanto estamos a falar com eles não desviam o olhar nem um minuto e estão a ouvir também com os olhos!

Nessa viagem, o que eu senti também é que fui profundamente cuidada, nutrida, pelas pessoas que trabalhavam no Centro Ayurveda, quer pelos médicos, quer pelos terapeutas e pelas pessoas que cozinhavam, que criavam um ambiente no qual eu estava perfeitamente relaxada a ser apenas cuidada, inclusivamente a darem-me banho em alguns momentos em que era necessário. Por exemplo, uma terapeuta lavar-me as costas quando estavam cheias de óleo, porque eu não conseguia lavá-las de forma eficaz.


Em 2025 a Diana Chiu Batista fez-me o convite de eu levar um grupo, porque na Macro Viagens têm de vez em quando professores de ioga que levam grupos. E a agência não consegue, no meio de tantas viagens, acompanhar todos os grupos e há pessoas que não querem ir sozinhas, apesar de serem viagens muito seguras, porque têm um “pack” em que a agência trata da viagem, da estadia, de uma pessoa que vá buscar os viajantes ao aeroporto, enfim, está tudo muito organizado. E vim a perceber posteriormente que o sul da Índia é um local muito seguro.


O Cristianismo chegou à região através do apóstolo São Tomé. Depois, como tem uma grande costa e o povo é muito acolhedor, recebeu muito bem os missionários cristãos que chegaram mais tarde, a partir do século XIII. E estes trouxeram cultura, saúde, regras de higiene e uma série de coisas que fez com que o Estado de Kerala, onde fica o Centro Ayurveda, seja um dos mais desenvolvidos da Índia a todos os níveis. É um Estado onde a segurança é grande e as pessoas são tranquilas.


Dulce Costa juntou um grupo de 17 pessoas da Comunidade Mil Grãos para uma visita aos centros Ayurveda no Estado de Kerala, no Sul da Índia. Aqui o grupo está no centro Lake & Mountains
Dulce Costa juntou um grupo de 17 pessoas da Comunidade Mil Grãos para uma visita aos centros Ayurveda no Estado de Kerala, no Sul da Índia. Aqui o grupo está no centro Lake & Mountains

Então eu aceitei o convite da Diana, lancei-o na minha “newsletter” e na minha comunidade e juntei um grupo de 17 pessoas. Foi a primeira vez que viajei para a Índia com um grupo e a experiência foi incrível, porque eu não estava à espera que em oito dias houvesse tanta transformação a nível de saúde das pessoas, tantos testemunhos de doenças e de problemas de saúde que foram ultrapassados, desde problemas físicos da parte músculo-esquelética até outro tipo de problemas: pessoas que tinham insónias e deixaram de ter, que tinham secura nas mucosas e deixaram de ter, que dormiam com dores há anos e que deixaram de as ter, pessoas que emagreceram 4 kg numa semana porque desinflamaram. Tive, assim, tantos testemunhos que fiquei mesmo impactada e sinto que é um local onde quero levar mais gente.     


UM ESTILO DE VIDA SEMELHANTE AO MACROBIÓTICO


É preciso ir tão longe para passar por uma experiência deste tipo?

Eu não conheço nenhum sítio mais perto. O que sinto é que no Centro Madukkakuzhy as pessoas estão mesmo interessadas em que tu chegues a um nível de saúde bom enquanto lá permaneces. E adquiras hábitos de alimentação e de estilo de vida que possas trazer depois para o local onde vives. Não conheço nenhum sítio mais perto que tenha uma consulta por um médico Ayurveda por dia, vários médicos sempre disponíveis para aquilo que tu precisares – se tens uma dúvida, se estás a sentir-te mal, tudo, tudo, tudo está coberto por vários médicos!


A nível de alimentação, há sempre um médico que vai passando na zona onde podemos servir-nos, tentando perceber se a pessoa está a seguir a dieta que lhe foi prescrita ou não. Por exemplo, uma pessoa com hipertensão arterial tem a comida que lhe está a ser servida sem sal. Uma pessoa que está a fazer uma dieta específica, tem logo a comida que pode comer junto dela. Pessoas que só podem comer “meia dose”, têm também as quantidades que devem comer junto delas. É uma alimentação adaptada à situação de cada pessoa, mas seguida com um rigor impressionante!


Acabas por ter ali o estilo de vida macrobiótico, porque a alimentação segue os princípios da Macrobiótica adaptada ao local onde está, a Índia. O estilo de vida é o recomendado pela Macrobiótica mesmo a nível de horas para levantar, horas para comer, práticas que deves ter de alongamento, de exercício, enfim, uma série de pontos em comum. E a pessoa ali é levada a seguir esse ritmo e percebe os efeitos no seu corpo.


Portanto, está aqui uma oferta que é difícil de encontrar noutro lugar, pelo menos pelo preço que lá é praticado, e para além disso tens as terapias que não há em mais lado nenhum. Adaptadas a cada pessoa. Por exemplo, o meu marido ia com uma tendinite com meses e meses. Ele já tinha tentado fazer várias coisas – acupuntura, osteopatia, fisioterapia – e não conseguia resolver o problema. No Centro Madukkakuzhy fizeram-lhe vapores, aplicaram-lhe uma pasta feita de plantas.


Dulce Costa com o marido, Hélder Rosa, na Índia
Dulce Costa com o marido, Hélder Rosa, na Índia

E o teu marido melhorou?

Ele veio sem dor. Por exemplo, ele não conseguia levantar o braço acima do ombro e veio a conseguir fazer o estiramento total. Há uma coisa que eu até achava que era da condição dele: não conseguia, por exemplo, pôr os dedos da mão todos direitos, ficavam sempre com uma ligeira curvatura, e ele, desde que se lembra de si, tinha essa curvatura na mão. Agora consegue esticar os dedos, para veres a profundidade a que vão os tratamentos, e em pouco tempo, porque oito dias não são nada! E ele veio da Índia muito mais consciente do que deve fazer para manter este bem-estar que tem agora.

Mesmo eu, a nível de fazer esforços, porque gosto muito de levantar cargas, venho muito mais consciente daquilo que devo fazer e como é que posso compensar este meu gosto por fazer exercício com carga com outras coisas que me ajudam a equilibrar.


Se calhar não é preciso ir tão longe de Portugal, mas não conheço outro local onde haja um interesse genuíno para que tu venhas de lá bem e consigas, depois, o mesmo estilo de vida. E não conheço um sítio onde as coisas sejam levadas tão a sério: a hora de dormir é hora de dormir, a hora de levantar é hora de levantar, a comida que tens de comer é aquela. Portanto começamos a perceber o que faz bem ao ser humano, como é que devemos viver.

 

O USO DIRETO DAS PLANTAS NOS TRATAMENTOS


Existem vários Centros Madukkakuzhy na Índia?

Eu conheço os três principais na Índia. E há também um na Alemanha. Na Índia, o Homestay é o centro mais antigo, o sítio onde vive a família que o fundou. E já vai em nove gerações de médicos Ayurveda. Na Índia têm muito esta cultura de receber em casa, e um médico começou a receber as pessoas com os casos mais graves na casa dele. Os médicos anteriores não faziam isso, tinham um consultório. Depois construiu uma casa, foi em crescendo, até ter aquele primeiro centro, que tem várias casinhas e uma capela, porque a família é católica. Outra coisa que eu percebi no Sul da Índia é que há muito mais prática religiosa visível do que vejo na Europa ou em Portugal, e a fé daquelas pessoas é impressionante. No Homestay, todos os dias rezam um terço ao final do dia e convidam quem está para ir rezar com eles. Portanto, participamos na vida da família.


Depois, eles criaram mais um centro que se chama Lake & Mountains, que é na montanha junto de um lago. Entretanto, do outro lado do lago têm ainda outro centro que foi aquele onde eu estive com a Isabel Silva durante duas semanas, que se chama Healing Island. Estes dois últimos centros estão muito próximos um do outro, o Lake & Mountains é um centro maior. Se fores sozinho e quiseres estar mais desconectado das pessoas, é o centro ideal.

Os médicos principais do Homestay, da família, vão também a estes centros, mas também têm médicos seniores residentes. Pelo que eu sei, o curso de Medicina Ayurveda demora cinco anos e meio, mais dois anos para fazer a especialidade. Portanto é um curso tal como nós temos o curso de Medicina na Europa. E é uma medicina milenar, que nunca deixou cair o conhecimento de utilização das plantas.


Sinceramente, se nós na Europa não nos tivéssemos acomodado à utilização de fármacos e de medicamentos - muitos deles, vão buscar este conhecimento também às plantas, mas já não vêm tão puros, têm químicos - talvez tivéssemos mantido aquilo que a Medicina Ayurveda faz: a utilização direta das plantas nos tratamentos. Eu vi a farmácia deles, onde se produzem os medicamentos, e tem logo à entrada um monte de plantas, e eles utilizam tudo, desde a raiz às folhas, para diversas preparações. Algumas são só trituradas e depois vão para decocções ou são utilizadas noutras coisas ou são trituradas mais finamente e prensadas. Têm medicamentos que demoram semanas a fazer. Têm um que demora 101 dias a preparar e todos os dias é preciso ir lá fazer coisas e não é utilizado antes, ou seja, os óleos são ali preparados, é tudo preparado de raiz no Homestay na tal farmácia, onde não é permitido tirar fotos.


E ainda utilizam fogo, caldeiras enormes. Fazem também fermentação de alguns produtos, de algumas plantas, tanto que há medicamentos em xarope ligeiramente alcoólicos, não por levarem álcool, mas por levarem mel, por exemplo, e depois são fermentados, ou seja, acabam por ter algum teor alcoólico. E vemos isso ser preparado.


É muito interessante perceber como é que esta medicina foi sendo passada de forma tão íntegra, mantendo o conhecimento ancestral e sem vergonha nenhuma de o passar, exatamente como ele está, sem se vender à medicina ocidental. Em Portugal tivemos um médico muito conhecido no século XVI, Garcia de Orta, que passou 30 anos a estudar Medicina Ayurveda. Morreu em Goa e trouxe muito conhecimento de medicina tropical e de medicina asiática para a Europa, que ainda hoje é utilizado. E é muito interessante perceber como algumas destas influências chegaram até nós, mas que não há um reconhecimento geral, por assim dizer, ou a maior parte das pessoas nem sabe quem foi Garcia d’Orta, o que ele fez, e o impacto que ele teve na nossa medicina, trazendo conhecimento da Medicina Ayurveda.

 

Não há um santuário católico no Sul da Índia, onde viveu um dos apóstolos de Jesus?

Sim, foi São Tomé. Morreu lá e existe o túmulo dele. Os apóstolos de Jesus foram enviados para vários continentes. Nós recebemos São Tiago, que veio para a Península Ibérica e foi muito mal recebido (risos). E temos a tradição de São Tiago de Compostela.


Há muita tradição católica no Sul da Índia, vemos tantas igrejas e capelinhas, vamos na rua de táxi e veem-se cruzes, imagens de Nossa Senhora, têm uma devoção imensa pelo Sagrado Coração de Jesus, aparece em todo o lado. No Estado de Kerala, que tem 35 milhões de habitantes, cerca de 12% da população é católica. Nos centros Ayurveda de Homestay e de Lake & Mountains, os quartos têm um crucifixo, como acontecia antigamente em Portugal nos nossos quartos. No local onde os médicos dão consultas há sempre uma imagem grande do Sagrado Coração de Jesus, quando somos recebidos. E antes de sairmos em grupo reza-se sempre, tal como antes de cada tratamento. Portanto há ali uma grande influência católica e não há vergonha nenhuma de o demonstrar. Nós ficamos fascinados com coisas que vêm de fora. Se eu disser que agora sou budista, toda a gente fica fascinada.


Se eu disser que sou católica, há logo quem diga que é um grupo de pessoas fundamentalistas, os padres são uns pedófilos. É um desgosto que eu tenho, porque os valores cristãos permitiram construir a Europa como ela é, tão tolerante e segura. Temos uma fé envergonhada.    

 

O CRISTIANISMO E A ABUNDÂNCIA DE DEUS


Apesar do teu forte envolvimento na Macrobiótica, és católica praticante. Como conjugas a filosofia oriental com a tua religião?

Primeiro, eu não misturo a Macrobiótica com a religião. Eu sei que falo da energia dos alimentos e de tudo isso, mas temos na Igreja Católica a Santa Hildegarda, que utilizava a alimentação com princípios muito semelhantes aos da Macrobiótica para ajudar as pessoas a melhorar os problemas de saúde. Vamos deixar isto de lado.


Mas vamos aqui também à Macrobiótica. Não sei se sabes, o Michio Kushi e a Aveline foram os primeiros a casar na Igreja Católica na aldeia deles. Quando a Aveline contava a vida dela, ela recordava que o cristianismo e o catolicismo chegaram ao Japão no século XVI, e eles foram o primeiro casal a casar na igreja construída no sítio onde moravam.

Para mim, a Macrobiótica, apesar de ter um entendimento do Mundo que pode não estar em alguns princípios ou em alguma visão de acordo com o Catolicismo, deseja que o ser humano se desenvolva em todo o seu potencial e traga, através da alimentação e do estilo de vida, uma saúde mais equilibrada e também mais equilíbrio em termos emocionais, criando famílias mais felizes.


E eu sinto, no Cristianismo, que tenho “o copo cheio”, mas não é a transbordar para ficar zangada com alguma coisa. O copo está cheio do amor de Deus, porque eu rezo, tenho as minhas práticas, reconheço-me como pecadora e não tenho problema nenhum em dizer que em muitos momentos posso estar afastada do amor de Deus, fazer coisas que não estão de acordo com o amor que eu conheço e que me foi passado, mas vejo em Jesus esse amor pleno pelas pessoas, o perdoar 70 vezes 7. Quando o apóstolo Pedro perguntou a Jesus se perdoar até 7 vezes era suficiente, ele respondeu: “Não, é 70 vezes 7”. E depois contou a parábola do rei que perdoava tudo a uma pessoa que lhe devia imenso e depois essa pessoa não perdoava a outra que só lhe devia 100 denários.


Dulce Costa junto à Catedral de Santiago de Compostela, depois de ter percorrido o Caminho de Santiago com Isabel Silva (projeto DoBem) em setembro de 2025: "Sou muito feliz tendo Jesus como modelo"
Dulce Costa junto à Catedral de Santiago de Compostela, depois de ter percorrido o Caminho de Santiago com Isabel Silva (projeto DoBem) em setembro de 2025: "Sou muito feliz tendo Jesus como modelo"

É a abundância de Deus, e eu sinto também esta abundância na Macrobiótica. E sinto que ao ensinar a Macrobiótica estou a ajudar as pessoas a viver melhor. E estas pessoas, se viverem melhor, também vão estar mais de acordo com os princípios do Cristianismo. Acaba por haver aqui uma conjugação do interesse de desenvolver plenamente a consciência da pessoa, de esta estar bem fisicamente e, mesmo quando não está bem, não procura tramar a vida a ninguém (risos), é mesmo assim, ter esta capacidade de reflexão ao final do dia. Uma das caraterísticas da Macrobiótica que me foi passada pelo Francisco Varatojo é fazer uma reflexão constante ao final do dia se a nossa vida está a seguir o rumo certo, o rumo que queremos ou aquilo que achamos que nos está a ser pedido. E no Cristianismo eu tenho um exame de consciência lindíssimo, se seguir os passos desse exame de consciência bem feito, permite-me fazer esta reflexão de forma muito estruturada.


Eu também sinto que a Macrobiótica entrou numa fase da minha vida porque me afastei um bocadinho da religião católica, porque sou divorciada e voltei a casar com um homem, aos olhos da Igreja estou numa situação irregular, não posso confessar-me, não posso comungar, há uma série de coisas relativamente às quais estou vedada. E estou em pecado ao viver assim. Portanto, fui à procura na Macrobiótica de valores que são muito semelhantes àquilo que eu conhecia no Cristianismo.

 

Eras casada pela Igreja?

Sim, era casada pela Igreja com o pai dos meus dois filhos mais velhos, que era meu colega no Instituto Politécnico de Setúbal. Depois encontrei o Hélder, ele tinha o curso de Medicina Tradicional Chinesa, era professor de Chi Kung, comecei a ir às suas aulas e, entretanto, comecei a fazer uma formação de Chi Kung em que ele também estava e, portanto, o pensamento oriental, a forma de estar mais ligada à Macrobiótica e a Medicina Tradicional Chinesa acabaram por nos juntar. E temos um filho em comum, o Lucas. No fundo, temos os dois quatro filhos, porque ele já tinha uma menina mais velha.

 

Depois de tudo isto reaproximaste-te do Cristianismo?

Sim, e sinto que é a minha resposta, sou muito feliz tendo Jesus como modelo.

   

VER DE PERTO AS 5 TRANSFORMAÇÕES E ESCREVER UM LIVRO


Porque decidiste lançar o livro “Cozinha que Cura – Como a Macrobiótica pode transformar a sua saúde, energia e vitalidade”?

Havia diversas pessoas a pedir-me um livro. Várias vezes por mês perguntavam-me se eu tinha um livro. Eu respondia que não e recomendava os livros do Francisco e da Geninha Varatojo e ainda hoje continuo a recomendá-los, principalmente o livro “Mente Sã, Corpo São”, porque acho que é um livro que muda vidas. Agora talvez já existam muito movimentos a dizer aquilo que o Francisco disse nesse livro, mas ele foi pioneiro, naquele livro ele abriu a cabeça a muitas pessoas.


Eugénia Varatojo e Teresa Mizon numa das apresentações do livro de Dulce Costa
Eugénia Varatojo e Teresa Mizon numa das apresentações do livro de Dulce Costa

Quando me mudei para Fiais da Beira, comecei a viver mesmo junto da terra, a cultivar os meus alimentos e a observar a maneira de viver das pessoas da aldeia, onde ainda há muita tradição do cultivo dos alimentos, de viver com as estações. Por exemplo, em agosto as pessoas já estavam a encher de lenha os locais onde a guardavam para o Inverno. Só se faz isto nas aldeias, nas cidades já não usamos lenha, ou quem ainda a usa só se lembra que é necessário lenha quando começa a vir o frio. Aqui não. O ritmo é diferente, no Inverno não vejo quase ninguém no campo e no Verão, às vezes, às cinco da manhã já há pessoas a apanhar batatas.


É mais fácil entender a filosofia macrobiótica quando começas a ver de perto as Cinco Transformações (Madeira, Fogo, Solo, Metal e Água), porque por detrás tens filosofia, princípios, uma série de coisas que são mais difíceis de explicar. E eu chego aqui a esta aldeia e começo a ver as Cinco Transformações na realidade. É difícil ter a percepção disso por mais que tentes estudar, quando estás a viver numa cidade. Mesmo que olhes para as árvores. A chuva acaba por ser uma chatice, as folhas das árvores fazem-nos escorregar na rua, ou seja, nós vivemos um bocadinho em conflito com o que é natural quando vivemos numa cidade. A cidade não está preparada para a Natureza e afasta-nos dessa mesma Natureza.


Quando comecei aqui na aldeia a ver tudo a acontecer, pensei que era isto que eu estudei, a maneira como as pessoas vivem, os ritmos que mudam, a hora de levantar que muda ao longo do ano. Isto vem nos livros, no Inverno devemos dormir mais e ir para a cama mais cedo, no Verão devemos ir um bocadinho mais tarde e levantar um bocadinho mais cedo, proteger-nos na hora de maior calor no Verão. E eu comecei a ver que isto acontece aqui na aldeia de uma forma muito natural. No fundo, se as pessoas estiverem próximas da Natureza, vivem no ritmo certo.


Então, quando comecei a escrever o livro, numa fase inicial queria tentar explicar porque é que este ritmo está certo. E aquilo que eu estava a viver aqui na aldeia parecia ser a aplicação daquilo que eu tinha estudado na teoria. Claro que o livro tem também muitas receitas, porque a maior parte das pessoas que me pedia um livro queria receitas.

 

Quem é que te pedia para escreveres um livro?

As pessoas da minha comunidade virtual, a Comunidade Mil Grãos, as que escreviam para o meu e-mail, que me contactavam nas redes sociais, enfim, tinha muitos pedidos. Então resolvi organizar o livro com as receitas da época em que estamos. Assim, o livro está dividido em cinco estações (Primavera, Verão, final do Verão, Outono e Inverno) e tem receitas com os alimentos mais portugueses, por assim dizer. É um livro um bocadinho menos com alimentos japoneses – embora eu gostasse muito de fazer um dia um livro sobre os alimentos terapêuticos japoneses – e mais com os alimentos a que estamos habituados. Os princípios da alimentação mediterrânica conjugam-se muito bem com a Macrobiótica, assim como a alimentação Ayurveda na Índia seria a que a Macrobiótica iria recomendar, principalmente a do Sul da Índia, que é um bocadinho mais saudável, e a praticada dentro dos centros Ayurveda, a comida terapêutica.


A primeira edição de 3000 exemplares do livro "Cozinha de Cura", lançada em abril, esgotou. E a editora já está a preparar a segunda edição
A primeira edição de 3000 exemplares do livro "Cozinha de Cura", lançada em abril, esgotou. E a editora já está a preparar a segunda edição

É um livro com receitas mais para a família, sabores que reconhecemos como nossos. Eu tenho uma grande paixão pela tradição portuguesa, e quando o Francisco Varatojo dizia que um dos princípios da Macrobiótica é respeitar a tradição, isto fazia-me todo o sentido ao escrever este livro. Há muitas pessoas a agradecer-me por ter escrito, a mandarem-me fotografias das receitas que fizeram. Ainda agora o médico do meu centro de saúde, que é vegetariano, disse-me: “Ai Dulce, estava mesmo a precisar disto!”. Ele vai apresentar o livro aqui numas festas na vila ao lado, onde eu estarei a fazer um “show cooking”.


Espero, sinceramente, recuperar alguns dos alimentos que foram caindo em desuso em Portugal, como o millet, um cereal que era cultivado antigamente no nosso país e conhecido para fazer a broa tradicional. Depois veio o milho doce da América do Sul e substituiu o milho painço, porque é muito mais agradável, é doce. Tenho aqui um livro de Vildemoinhos (Viseu) que fala disso, ilustrado pelo meu irmão, que é fotógrafo. A broa de Vildemoinhos era feita de milho painço e mais tarde começou a ser feita com milho. Gostava também de recuperar a utilização do centeio, mesmo para a alimentação humana, e da cevada. Portugal perdeu bastante o uso dos cereais. E agora, com a demonização dos cereais, é preciso que a nossa voz não se cale.


O meu livro vem muito neste sentido, e para tu veres como as pessoas estavam à espera deste livro, nas duas semanas de pré-venda eu estive em primeiro lugar na livraria online Wook. Repara que em pré-venda as pessoas não recebem o livro, nunca o desfolharam, foi um voto de confiança no meu trabalho destas pessoas que estavam à espera, portanto eu senti uma grande obrigação, sou muito movida pelo sentido de missão. Se as pessoas me pediam e se eu tinha alguma coisa a comunicar, eu queria passá-la para um livro.

É o meu primeiro livro, antes só escrevi teses de mestrado e de doutoramento, mas gosto de escrever e de experimentar, são duas coisas que vêm da minha costela de engenheira.

 

Quantos livros já foram vendidos?

A primeira tiragem foi de 3000 exemplares e o livro já seguiu para uma segunda edição, depois de ter sido lançado em abril pela Albatroz, da Porto Editora.

 

VIVER NO CAMPO APOIADA PELA COMUNIDADE LOCAL


Criaste uma comunidade virtual, a Comunidade Mil Grãos, e uma escola virtual, a Escola Mil Grãos. Porquê?

Os cursos são todos online neste momento, mas espero que, no futuro, possa ter formações presenciais. Inicialmente, quando mudámos para a aldeia de Fiais da Beira, tínhamos comprado uma casa com uns anexos que já estavam recuperados, onde eram guardadas máquinas agrícolas e alguma lenha. Tem umas lojas, depois um andar e um sótão. O dono desta casa, que era arquiteto, recuperou os anexos, mas nunca recuperou a casa principal, que tem mais de 100 anos. Ficámos a viver nos anexos, mas tive aqui um tempo em que não estava a viver aquilo que queria, porque vivia nuns anexos exíguos e não conseguia ensinar, tinha de ir a Lisboa para o fazer no Instituto Macrobiótico de Portugal (IMP) e continuei a ensinar lá, mas o meu objetivo era trazer a Macrobiótica para pessoas que não se podiam deslocar a Lisboa ou ao Porto e que viviam mais no interior. Tinha muito esta visão.


Entretanto, já tinha começado a dar cursos e formações online durante a pandemia, que me obrigou a esta opção. Quando chegámos à aldeia estivemos uns meses a recuperar de tudo, tínhamos uma casa em construção, um quintal imenso para tratar, muitas coisas, uma mudança, filhos, tudo a acontecer ao mesmo tempo, e eu comecei a perceber aqui que o que me estava a valer era a comunidade local.


Quando aqui cheguei todas as pessoas me ajudaram. Ainda não estava cá há uma semana e um vizinho bateu-me à porta com uma saca de batatas e disse: “Acabei de apanhar as batatas e se calhar precisa”. E entregou-me as batatas. A minha vizinha da frente deixou que eu estendesse lá a roupa, eu tinha coisas na arca frigorífica na casa dela porque o meu frigorífico era exíguo, houve vizinhos que me ofereceram de tudo, traziam-me coisas, eu estava a ser literalmente carregada por uma comunidade, porque isto estava a ser difícil para mim, mas era acolhida como se fosse uma pessoa da família.


Ao fim de dois meses, eu e o meu marido tivemos de sair e o meu filho mais novo tinha aulas e não podia ir conosco, mas logo uma vizinha nos disse: “Eu tenho um quarto”. E o miúdo ficou num quarto com casa de banho privativa na casa dela. Quando precisávamos de sair, havia sempre alguém para dar o almoço ao menino ou para ir buscá-lo à escola se fosse necessário. Aqui há um autocarro que leva e traz as crianças nas aldeias, mas houve todo este apoio da comunidade local.


Tenho outra vizinha que, por exemplo, às vezes não estou em casa e quando chego tenho os canteiros todos limpos, ela vem cá apanhar as ervas sem me dizer nada. É este tipo de proximidade que nós temos.

 

CRIAR UMA COMUNIDADE PARA QUEM SE SENTE SÓ


E comecei a pensar, até por colegas que eu conheço da Macrobiótica: quantas pessoas entram na Macrobiótica e fazem os cursos e ao fim de algum tempo sentem-se sozinhas, porque não há gente a viver da mesma forma que elas, que fale a mesma linguagem, que tenha o mesmo tipo de valores? E concluí: se tiver de criar alguma coisa é uma comunidade de apoio como esta que eu sinto aqui na aldeia. Estava longe de tudo, aqui conseguia ter uma comunidade física de apoio, mas não tinha a Macrobiótica. E se eu criasse uma comunidade macrobiótica?


"Há pessoas que fazem cursos de Macrobiótica e ao fim de algum tempo sentem-se sozinhas, porque não há gente a viver da mesma forma que elas, que fale a mesma linguagem, que tenha os mesmos valores"
"Há pessoas que fazem cursos de Macrobiótica e ao fim de algum tempo sentem-se sozinhas, porque não há gente a viver da mesma forma que elas, que fale a mesma linguagem, que tenha os mesmos valores"

Nessa altura, entraram na comunidade talvez umas cem pessoas, eu lancei o convite – uma subscrição, as pessoas ou pagavam anualmente para pertencer à comunidade, ou pagavam mensalmente, e agora vou entrar num novo registo trimestral, semestral ou anual. Houve imensas pessoas que me passaram um cheque em branco, eu ainda não tinha criado nada, nada. Disse apenas que ia criar uma comunidade online, quem entrasse nela ia ter acesso a um curso de filosofia macrobiótica gravado por mim e uma aula de culinária macrobiótica por mês, mais uma “master class” sobre um tema aleatório, com especialistas de uma determinada área relacionada com a Macrobiótica que eu convidava. Lembro-me que um dos primeiros temas a ser tratado foi a organização da cozinha, e eu convidei uma pessoa especialista em organização. E tínhamos ainda um encontro mensal.


Não imaginas a adesão que houve de pessoas ligadas à Macrobiótica, inclusivamente de professores meus no IMP que entraram na comunidade. Hoje os seus membros já não prescindem de estar na comunidade, de terem um grupo de pessoas com quem falam se tiverem um problema de saúde, ou até sobre uma receita, se podem substituir isto por aquilo, e há sempre alguém que responde.


Depois há motivação, pessoas que perguntavam: “Oh, Dulce, porque não ensinas a fazer tempeh e a fazer miso?” E eu dizia: “Não, isso não são aulas de Macrobiótica, é produção caseira”. Então passaram a ter também aulas de produção caseira. Por exemplo, houve uma pessoa que veio dar uma aula de produção de vinagres e agora, no grupo, de vez em quando há alguém que diz: “Estou a fazer vinagre de framboesa, olha que bonito!”. Portanto há aqui um constante estímulo de seguir este estilo de vida, já não somos os “esquisitinhos”, estamos todos juntos! (risos).


Não há temas tabu dentro da Macrobiótica, dentro da comunidade, se quiserem falar do consumo de carne ou da utilização de suplementos, falamos sem problema nenhum, cada um dá a sua opinião e há uma gestão muito fácil de fazer porque são pessoas muito conscientes e não há ninguém a atacar ninguém. Imagina que há uma pessoa operada, pede ajuda, pede até o que deve fazer a seguir à operação, ou se há alguma coisa que possa fazer para evitar a operação, coisas deste género, é uma comunidade assim.

 

Quantas pessoas tem a comunidade?

Neste momento tem mais ou menos 150 pessoas. Há também algumas pessoas convidadas, como professores.

 

UMA ESCOLA DE SAÚDE INTEGRAL


Porque é que coexiste a Escola e a Comunidade Mil Grãos?

A Comunidade tem acesso a quase todos os cursos. Não tem acesso a um curso que eu chamo Leitaria da Mil Grãos, em que ensino a fazer queijo às pessoas que querem fazer a transição para a alimentação macrobiótica, mas que ainda sentem a necessidade de ter o queijo, o iogurte, etc. Ensino a fazer tudo e tenho orgulho nesse curso. Aliás, há pelo menos duas pessoas que fizeram o curso e que têm agora negócios na área dos queijos vegetais.

A Escola é uma escola de saúde integral. Eu não quero ser a única professora nessa escola, não domino tudo. Então tenho o curso de Herbalismo que se chama “Nove Luas no Caminho das Plantas” e é dado por uma herbalista, uma professora incrível. Tenho um curso de cosmética natural, que é dado por outra professora, tenho também um curso do Ki das Nove Estrelas com o Alexandre Saldanha da Gama, que é uma pessoa que comunica de forma excelente. Vou ter em breve um curso de fermentados todo completo, que não é só dado por mim, convidei uma pessoa que também é incrível a dar as aulas.


Assim, tenho professores como o Alexandre, a Sílvia da “Sentidos da Terra”, a herbalista Luísa Pitadas, a Ana Russo na parte da fermentação, e depois, dentro da Comunidade, vou tendo sempre professores convidados para as “master class”. Por exemplo, tenho uma professora que com um site chamado Cachorro Verde, onde ensina a fazer comida natural para animais, cães e gatos, porque os nossos cães e gatos estão a ser mortos com rações. E ela vai fazer uma “master class” na minha escola. Não há nada mais macrobiótico, cada espécie comer aquilo que é próprio para a sua espécie. Portanto, vou tendo sempre pessoas convidadas que aportam valor à Comunidade. 


É uma escola virtual e tenho alunos da Noruega, Canadá, Reino Unido, Espanha, Alemanha, enfim, de todo o lado, incluindo dos Açores e da Madeira.


Assim, a adesão à Comunidade é uma subscrição e depois tenho os cursos que são anuais ou de acesso vitalício, como o de queijo ou o de pão. E é uma escola com cursos online. É o que faz sentido, porque eu não consigo dominar tudo e tenho, assim, professores convidados que podem falar das suas áreas e que ajudam a melhorar a vida das pessoas.


A maior parte das pessoas que se liga à Macrobiótica tem uma consciência diferente em relação à Natureza. E se puder fazer os seus próprios sabonetes, utilizar plantas em vez de um fármaco - porque há uma flora tão rica que é importante as pessoas terem no seu quintal um jardim terapêutico - ou saber comprar um chá, vai fazê-lo. É bom que este conhecimento não se perca, que cada vez mais pessoas saibam utilizar as plantas e as respeitem.  

 

 

UM GRÃO, DEZ MIL GRÃOS: 44 MIL SEGUIDORES E 200 VÍDEOS


É esta grande adesão a tudo o que estás a fazer agora que justifica teres nas redes sociais uma grande audiência? É que tens mais de 44 mil seguidores no Instagram, 29 mil seguidores no Facebook e mais de 200 vídeos no YouTube, bem como uma presença regular com podcasts, vídeos, receitas, artigos e reportagens no site dobem.pt da Isabel Silva, que tem 143 mil seguidores no Instagram. Como foi possível alcançares este sucesso nas redes sociais em poucos anos?

Queres saber como é que eu comecei a crescer? O nome da Mil Grãos tem a ver com o conceito tradicional japonês “Um grão, dez mil grãos”, popularizado no Ocidente por George Ohsawa. E tem a ver com acreditar na abundância da Natureza: nós damos uma coisa e a Natureza é capaz de produzir muito mais. A Natureza é generosa e abundante. É este o princípio. E no início da Mil Grãos, era um projeto que eu tinha à parte, dava sempre conteúdo gratuito, não tinha sequer o objetivo de alguma vez fazer daqui uma empresa e ter uma escola com cursos pagos.


Mas houve uma fase da minha vida em que entrei num desafio: 90 dias, 90 vídeos. E comecei a partilhar os vídeos no Youtube. Ainda lá estão e é muito engraçado ver-me há uns anos atrás novinha, quando era muito mais atrapalhada e tímida a falar para uma câmara. E nesse desafio, em que também fazia “master class” gratuitas de duas horas, duas horas e meia, que estão gravadas no Youtube, lembro-me que falei uma vez sobre colagénio, outras vezes sobre o leite de vaca e a mentira que nos contam, tudo com muita informação científica, porque a minha parte científica está sempre cá, e nesse desafio comecei a ter pessoas a dizer-me que estavam sempre à espera com a família do próximo vídeo.


Assim, habituei a minha audiência a uma presença constante. E a partir daí comecei a crescer nas redes sociais. Para além disso, eu tenho uma comunicação muito despretensiosa, não crio nada a pensar que vou vender, penso sempre no sentido de missão, ou seja, penso sempre que posso ajudar alguém com isto. E se posso ajudar alguém eu ajudo. E acho que as pessoas reconhecem isso, que não estou a vender, mesmo que às vezes esteja a divulgar algum produto que vou fazer. Enfim, tento sempre aportar valor naquilo que digo, ou seja, uma pessoa, só por ver e ouvir aquele vídeo já recebeu alguma coisa, não precisa de comprar mais nada. Se quiser depois comprar, compra.


O meu crescimento nas redes sociais deve-se, se calhar, por esta minha forma de ver o Mundo, o alimento, a saúde, o ser muito direta, não estar aqui com grandes subterfúgios, nem sequer ir em extremismos, porque há coisas na Macrobiótica que não fazem sentido nenhum neste momento como, por exemplo, achar que as pessoas não devem beber água nem urinar mais de três vezes por dia. Por amor de Deus, onde é que nós estamos? Portanto, acho que há algum reconhecimento e eu cresci de forma orgânica, não faço campanhas, não faço anúncios, não faço nada disso.


Entretanto, também conheci a Isabel Silva, fundadora do site dobem.pt e apresentadora de programas na TV. Ela seguia-me nas redes sociais, adorava o meu trabalho, eu não a conhecia, não a seguia sequer, e há um dia em que a Isabel me manda uma mensagem e diz-me: “Gosto muito do teu trabalho, gostava de te conhecer. Dá-me o número de telefone para falarmos”. E fui ver quem era a Isabel, era apresentadora de televisão, tinha o projeto dobem.pt, com o qual me identifico muito, e digo-lhe que sim, que podemos falar.


Eu vivia ainda nos anexos aqui em Fiais da Beira. Passei de uma casa de 400 m2, de uma moradia grande num lote de 2000 m2 no Golfe do Montado, em Palmela, para viver nuns anexos. Um dos anexos tem um quarto, uma salinha com uma cozinha e uma “mezzanine” onde está uma cama. E depois tenho outro anexo que tem mais um quarto e uma casa de banho. Era onde ficavam a minha filha e o meu filho mais velho, que está a estudar em Lisboa. A minha filha estava a estudar em Coimbra, vinha mais vezes cá e estava em permanência com o meu filho mais novo, mas vivíamos neste cubículo.


Dulce Costa com Isabel Silva, comunicadora e fundadora do projeto DoBem (dobem.pt)
Dulce Costa com Isabel Silva, comunicadora e fundadora do projeto DoBem (dobem.pt)

E a Isabel Silva disse-me que vinha cá e eu avisei-a: ”Ai, Isabel, mas eu vivo nuns anexos”. Ou seja, tinha muito mais condições para a receber uns meses antes na minha casa de luxo. Mas a Isabel respondeu: “Não faz mal nenhum, vou ter contigo”. Ela veio, conhecemo-nos e passado um mês disse-me que a minha história de vida era muito inspiradora, por ter tido a coragem de deixar uma vida em que tudo era mais ou menos previsível e perfeito - a minha progressão académica, o meu ordenado, o local onde vivia, os meus filhos nas atividades que queriam e a fazer o que queriam, uma vida bastante confortável financeiramente -, para largar tudo e ir para uma aldeia a viver nuns anexos até construir a casa, com obras com muitos desafios.


A Isabel quis conhecer a minha história, gravou o primeiro “podcast” comigo para o seu site, em que eu falo um bocadinho da minha história, de querer deixar isto também como exemplo para os meus filhos, de eles terem a coragem de seguir os seus sonhos, de não serem obrigados a seguir o sonho de alguém ou que alguém tenha para a sua vida, de serem corajosos e terem sempre um sentido de missão.


E foi assim que fui crescendo. O meu objetivo nunca foi crescer, foi ajudar mais pessoas. Se esta minha visibilidade permitir ajudar mais pessoas, eu agradeço muito. Se, pelo contrário, for para prejudicar alguém, então Deus que me tire a visibilidade!

 

DE PALMELA PARA FIAIS DA BEIRA: VIVER JUNTO DA TERRA


Portanto, mudaste radicalmente de vida há três anos, quando deixaste a tua carreira de 26 anos de professora de Engenharia Eletrotécnica no Instituto Politécnico de Setúbal e passaste a dedicar-te à divulgação da Macrobiótica e do Mindfulness e às consultas. O que aconteceu para fazeres com a família esta mudança?

Nós queríamos viver junto da terra. Em Palmela era só verde onde eu vivia. Era tudo verdinho, sobreiros, pinheiros mansos, lagos, mas era uma Natureza moldada à imagem humana. E nós queríamos cultivar a nossa comida, estar à vontade para ter animais, viver num ambiente de aldeia. Eu agora digo com muita convicção que não há nada como viver numa aldeia, numa comunidade pequena em que todos ajudam todos. E todos defendem aquilo que é de todos.  

 

Como lidaram com os incêndios florestais do Verão de 2025 na vossa região?

Foi uma aprendizagem para mim, porque vim viver para uma aldeia onde em 2017, um ano fatal para Portugal em termos de incêndios, ardeu tudo à volta e os bombeiros nem conseguiram cá chegar, foram as pessoas que defenderam as suas casas. O dono da nossa casa não estava cá em Fiais da Beira e as pessoas defenderam esta casa que não era de ninguém. E impediram que o fogo a consumisse. Há um pilar de madeira que está queimado e eu pedi ao meu marido para não o substituirmos porque queria essa memória na casa, a memória de que houve aqui um incêndio e pessoas que não tinham nada a ver com esta casa, mas que a defenderam.


Em 2017, mais de 85% do concelho de Oliveira dos Hospital, onde eu vivo, ardeu. Arderam escolas, casas, empresas, o Parque Industrial de Oliveira do Hospital ardeu todo, morreram pessoas aqui muito próximo da aldeia. Eu sabia a história da aldeia, não sou ingénua a ponto de não saber que aqui há fogos. Eu sabia que vinha para um sítio de fogos, mas percebi que nesta aldeia todos se juntaram para a proteger. Isto dá um sentido de comunidade a estas pessoas que raramente se encontra noutros locais.


Em 2025 estava um bocadinho ansiosa com os fogos, e tinha uma vizinha que me dizia: “Acalme-se, acalme-se Dulce, aqui há sempre uma pessoa na parte mais alta da aldeia a comunicar conosco onde é que está o fogo, quais são os perigos”. Eu estava ansiosa, mas tinha os vizinhos todos com uma experiência e uma capacidade de enfrentar isto – “não vai acontecer nada, Dulce, nós estamos aqui”. Portanto, vivi essa experiência de incêndio muito próximo, mas de uma forma muito sustentada pela comunidade. Eu estava ansiosa, mas, ao mesmo tempo, pessoas que já tinham passado por muito pior e deveriam estar em pânico, estavam relativamente calmas e diziam “isto não vai ser nada, estamos aqui, isto já aconteceu, tomámos conta de tudo, da outra vez nem bombeiros cá chegaram”.


E outra coisa que as pessoas diziam: “Se houver necessidade de sair daqui nós avisamos, Dulce”. Ok, vamos estar tranquilos, molhámos tudo, molhámos telhados, fizemos aquilo que é natural fazer-se, o meu marido, também muito consciente das coisas, tinha posto rega à volta do terreno, falhando a luz tínhamos uma bateria e dávamos prioridade à bomba de água. A verdade é que temos aqui estratégias para conseguirmos sobreviver, como a maior parte das pessoas que vive nestes locais tem de ter.  

 

O MOVIMENTO MACROBIÓTICO TEM PERDIDO INFLUÊNCIA


O Movimento Macrobiótico tem perdido influência e adesão nos últimos anos?

Tem, desde a morte do Francisco Varatojo. Antes, acho que o Movimento Macrobiótico em Portugal ia numa ascensão impressionante. Eu via o Instituto Macrobiótico de Portugal cheio, os cursos sempre cheios. Mas desde a morte do Francisco eu sinto que, apesar de ele ter deixado muitas sementes, nunca houve grande unidade entre as pessoas da Macrobiótica. Isto já é antigo, ou seja, o Francisco, ali à volta, conseguia reunir muita empatia de várias pessoas, não só da Macrobiótica, mas também de outras esferas, inclusivamente médicos e políticos. Ele era uma pessoa agregadora, muito empática, uma pessoa incrível nesta questão de reunir gente à volta dele, inclusivamente professores estrangeiros, que após a morte do Francisco ainda andaram em Portugal a gravitar um bocadinho, mas depois afastaram-se.


E desde aí o Movimento Macrobiótico acabou por estar um pouco em decadência em Portugal. E no Mundo já está em decadência há muito tempo. Portugal era um caso de estudo, por assim dizer, da Macrobiótica. Como é que havia este crescimento no nosso país? Os professores estrangeiros vinham cá ensinar coisas que já não conseguiam fazê-lo no país deles, porque cá é que havia interesse.


"O Francisco Varatojo era uma pessoa única, brilhante na forma de comunicar tudo!"
"O Francisco Varatojo era uma pessoa única, brilhante na forma de comunicar tudo!"

Entretanto, eu acho que não há ninguém insubstituível, mas o Francisco é insubstituível, é mesmo assim, estou a contradizer-me na mesma frase, mas era uma pessoa única, brilhante na forma de comunicar tudo! Depois temos uma corrente que é a Macrobiótica vegan do Bill Tara, que eu acho que não ajuda algumas pessoas em certos problemas de problemas de saúde. A Macrobiótica é de base vegetal, eu sou vegetariana, já não comia carne nem peixe quando encontrei a Macrobiótica, mas em algumas circunstâncias eu não retiro a carne e o peixe a uma pessoa que me consulta, principalmente o peixe e, portanto, temos de ir passo a passo, às vezes para recuperar o sistema digestivo de uma pessoa eu não consigo logo dar-lhe feijões.


A Macrobiótica está também a decrescer porque, cada vez mais, há nas sociedades ocidentais, incluindo Portugal, a necessidade de que as pessoas tenham cursos superiores reconhecidos pelo Estado. O que não é a mesma coisa do que cursos certificados ou dados por uma entidade certificada. A entidade certificada dá a certificação do curso, ou seja, reconhece que aquele instituto ou aquela escola cumprem determinados requisitos. Mas isso não é reconhecido pelo Estado como formação, como um curso de nutrição tirado numa universidade. Ou um curso de engenharia, porque também há institutos de engenharia que não têm formação certificada e não são reconhecidos pelo Estado.

 

HÁ FALTA DE UNIDADE ENTRE OS PROFESSORES


Há falta de unidade dentro da Macrobiótica?

Sim, principalmente entre os professores. Eu costumo dizer que não há concorrência no bem, e acredito mesmo nisto. As pessoas podem-se sempre ajudar. Claro que há pessoas que não jogam tão bem umas com as outras, é preciso respeitar isso, mas também não temos de estar chateados, com pouca capacidade de comunicação uns com os outros.


Por um lado, há sementes que estão a dar fruto e no meu caso eu sinto que estou, de alguma forma, também a cumprir o sonho do Francisco Varatojo e o sonho da Macrobiótica, com aquilo que estou a fazer. Mas, por outro lado, começa a haver esta consciência de que os cursos de Macrobiótica são uma formação, dão para o desenvolvimento pessoal, mas se uma pessoa alguma vez quiser fazer isto na vida não consegue fazer nada. Eu, por exemplo, fui enganada. Quando comecei a fazer o curso no Instituto Macrobiótico de Portugal pensei: “Ok, vou ter uma formação certificada”. Mas não me serve de nada. Tenho uma formação por uma entidade formadora certificada, mas que não é reconhecida em lado nenhum. E se as pessoas estiverem despertas, acabam por não querer fazer este tipo de cursos.

 

A filosofia macrobiótica está a ser desvalorizada?

Sim, sinto que cada vez se simplifica mais a Macrobiótica. Eu acompanhei as aulas do Francisco Varatojo e na primeira aula ele falava mesmo de filosofia macrobiótica durante um fim-de-semana. Se nós não mudássemos a forma de ver o Mundo nesse fim-de-semana, não íamos mais mudar na vida. O Francisco começava no sábado de manhã, terminava no domingo à noite, a falar continuamente, a fazer experiências conosco, mesmo coisas relacionadas com a energia, como usar o pêndulo ou pôr-nos açúcar numa mão, para vermos a força que tínhamos se tivéssemos açúcar ou sal. Essas aulas, esse fim-de-semana, eram incríveis. Nunca mais vi nenhum professor fazer o mesmo.


No ano em que fui assistente do curso que começou depois de o Francisco ter morrido - porque fui convidada para ser assistente - tive mais três anos de formação com outros professores, e quem deu a primeira aula foi o Bill Tara. Para meu desgosto, nessa aula ele passou à frente de tudo o que era filosofia macrobiótica nos slides do Francisco e disse “isto não interessa”, e foi uma aula só sobre veganismo.


E eu pensei: “A filosofia macrobiótica nunca mais vai ser dada”. Portanto, as pessoas não têm raiz, não sabem a filosofia, não sabem de onde é que isto vem e que princípios tem. As coisas estão desenraizadas, toda a gente papagueia muitas coisas, mas depois acaba por não se saber muito e por não acreditar que algumas leis nos ajudam a compreender o Universo e a nós próprios enquanto seres humanos.


Portanto, acho que se perdeu aqui muita coisa, não sei se haverá alguém em algum sítio com mais capacidade de ensinar. Mas ao mesmo tempo sinto que a Macrobiótica está muito atual, há agora muitos movimentos a dizerem exatamente o mesmo sem a roupagem da Macrobiótica. Só que depois há algumas coisas que as pessoas não entendem e não querem aprofundar.


Andamos na superficialidade em muitas áreas. Estamos a ficar cada vez mais superficiais até na arte, na cultura ou na música, e com pouca capacidade de aprofundar. Um exemplo: nas redes sociais, os miúdos não são capazes de ver vídeos de 10 segundos até ao fim e passam para vídeo seguinte. Ou seja, estamos a perder a capacidade de pensar e de aprofundar. Eu tenho muito o espírito do estudante, estou sempre a estudar, a ver, a explorar, e se me dão um livro antigo vou ler e aprofundar, mas sinto que há cada vez menos essa capacidade. E talvez a Macrobiótica esteja a sofrer com isso.       

 

O Movimento Macrobiótico tem apostado na transformação pessoal para mudar o Mundo, mas mais de 50 anos depois de ter começado no Ocidente, o seu impacto na sociedade não é muito visível. Face à situação atual do Planeta e ao crescimento do individualismo, o Movimento devia também apostar na transformação coletiva, isto é, em alguma forma de organização coletiva?

Esse era um bocadinho o sonho do Michio Kushi, a transformação do Mundo através da Macrobiótica com uma organização coletiva, que apostasse na Paz Mundial. Um movimento que tivesse mais impacto e uma organização global. Eu sinto que talvez fosse importante concretizar isso, mas das vezes que houve pessoas que o tentaram fazer, as que eu conheço saíram magoadas e não o conseguiram, porque dentro da Macrobiótica há muito individualismo.


Na minha escola estou agora a trazer pessoas novas que vão começar a ensinar coisas novas. Mas não sei se há muita gente que veja isto bem ou que seja capaz de fazer o mesmo. Eu gostava de ter ao meu lado pessoas que seguissem o sonho comigo. Tenho uma comunidade, para mim faz todo o sentido. Ainda há pouco tempo houve alguém que me perguntou: “Posso partilhar isto na Comunidade?” E eu respondi-lhe: “Claro que podes, a Comunidade também é tua”.


Devia haver mais unidade, porque temos uma visão comum que nos une, a visão da Macrobiótica para o Mundo, mas não sei se haverá a capacidade de criar uma organização coletiva, porque mesmo olhando para trás, para o passado, vejo muito individualismo. Claro que há a Conferência Internacional da Macrobiótica todos anos (este ano é em outubro em Zagreb, na Croácia), e talvez a partir dela possa nascer alguma coisa. No fundo, nós temos uma linguagem comum, a Macrobiótica, que é o que se constata nessas conferências: as pessoas têm os mesmos interesses, os mesmos valores, acabam por fazer o mesmo tipo de prática, de alimentação, têm muitos pontos em comum. E talvez nestes encontros internacionais se consiga fazer alguma coisa em comum a nível global. Eu ainda não consegui ir a nenhum deles, por motivos pessoais e familiares.   


A nível nacional, eu admiraria quem tivesse a coragem de começar a falar com os professores macrobióticos e as pessoas que estavam mais ligadas ao Francisco Varatojo, porque acho que todos seriam capazes de se unir mais.


 

1 comentário

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Sérgio Pereira
Sérgio Pereira
há 3 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Um grande «post», não tanto pela sua extensão — pois sai dos moldes habituais —, mas antes pelo seu alcance, esclarecedor e empático.

Para voltar a ler, ponderar e aprofundar.

Sinceramente, apenas uma palavra: Gostei!

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