Devi Sridhar: como viver até aos 100 anos
- Virgílio Azevedo
- 28 de jan.
- 5 min de leitura

As políticas públicas na saúde, nos serviços sociais e no ambiente podem ser decisivas para aumentar a longevidade, defende Devi Sridhar. A investigadora da Universidade de Edimburgo (Reino Unido) reconhece, numa entrevista ao jornal "Público", que “temos cada vez mais investigação e dinheiro, mas estamos a viver menos e, na verdade, com menos saúde”
VIRGÍLIO AZEVEDO
A longevidade tornou-se uma obsessão, em especial entre os multimilionários que investem em investigação científica com o objetivo de viver mais tempo. “Ao longo dos séculos sempre fomos obcecados com a pergunta ‘como posso viver mais tempo?’ – sobretudo os mais ricos”, explica Devi Sridhar, investigadora e professora de Saúde Pública Global na Universidade de Edimburgo (Reino Unido) e colunista no diário britânico “The Guardian”, numa entrevista recente dada ao jornal “Público”.
A entrevista foi feita a propósito do lançamento do seu novo livro “Como Não Morrer (Tão Cedo): As Mentiras que nos Vendem e as Políticas que nos Podem Salvar”, que ainda não tem edição em português (ver em https://www.penguin.co.uk/books/458539/how-not-to-die-too-soon-by-sridhar-devi/9780241742846 e em https://www.youtube.com/watch?v=KvjEV8DDgwk).
“Agora os multimilionários da tecnologia têm recursos para financiar investigação, fazer experiências, mas a verdadeira questão não é ‘podemos chegar aos 120 ou 150 anos?’. É, sim, como é que mais gente conseguirá viver até aos 100 anos – porque a esperança de vida está a diminuir”, constata Devi Sridhar. “Temos cada vez mais investigação e dinheiro, mas estamos a viver menos e, na verdade, com menos saúde”. Para não morrer cedo, o segredo está, para a investigadora da Universidade de Edimburgo, nas políticas públicas. “Muito do que tomamos como garantido no dia-a-dia resulta de decisões governamentais no passado. A água potável na torneira deve-se a uma decisão com a 100 ou 200 anos. É por isso que temos infraestruturas de água e saneamento”. O mesmo se passa com a qualidade do ar e as decisões governamentais de redução das emissões de gases com efeito de estufa. Ou seja, “muitas coisas que tomamos como garantidas não existem porque as deixámos para o mercado livre ou para a decisão dos indivíduos, mas sim porque o Governo tem estado, de forma mais ou menos ativa, a regular”.

Nove fatores de risco
Devi Sridhar destaca que há nove fatores de risco que, se forem superados com a aplicação de políticas públicas, permitirão que possamos viver mais tempo:
1. Consumo de alimentos ultraprocessados - “São o principal contribuinte para as doenças crónicas e os problemas de saúde”.
2. Exposição a plásticos e microplásticos.
3. Falhas do sistema de saúde - O esgotamento profissional e a escassez de mão-de-obra “têm um impacto direto na saúde e na longevidade da população”.
4. Solidão e isolamento social - “Uma causa significativa, e frequentemente negligenciada, de morbilidade (frequência de doenças numa população) e de mortalidade”.
5. Desigualdade - As disparidades socioeconómicas afetam fundamentalmente o acesso a ambientes saudáveis e a cuidados médicos, reduzindo o potencial de esperança de vida.
6. Fatores ambientais para além dos plásticos - O ar limpo, a água potável e os ambientes seguros “são cruciais para a saúde”.
7. Doenças relacionadas com o estilo de vida - A dieta, a inatividade e o consumo de drogas, álcool e tabaco continuam a ser “fatores-chave”.
8. Falta de acesso à assistência médica - O acesso inadequado à assistência médica limita o aumento da esperança de vida.
9. Foco sistémico na doença - Os sistemas médicos concentram-se frequentemente no tratamento das doenças da população em vez de as prevenir, negligenciando os riscos sistémicos.
O exemplo do Japão
O Japão “tem uma dieta muito saudável. A alimentação das crianças e as refeições escolares são muito equilibradas. Tem boa qualidade do ar, os acidentes rodoviários são minimizados e o sistema de transportes públicos é bom. A única coisa em que o Japão sofre mais é na saúde mental”, continua Devi Sridhar, recordando que “há certas zonas do Mundo onde as pessoas vivem vidas muito longas”, as chamadas Zonas Azuis. “Se qualquer um de nós se mudar para uma Zona Azul, viveremos mais tempo, simplesmente por estarmos num ambiente onde a vida saudável é o quotidiano”. Por isso, deveríamos “observar estes locais, aprender sobre as políticas, o ambiente e a cultura”.
As Zonas Azuis são regiões que se destacam pela longa vida dos seus habitantes, não apenas por serem centenários, mas também por envelhecerem sem doenças. Trata-se não só de viver mais, mas de viver melhor. O nome surgiu porque uma equipa de investigadores começou por sinalizar essas áreas no Mapa-Múndi com círculos azuis. Em 2009 encontraram os cinco locais que cumpriam os critérios definidos: a ilha de Okinawa, no Japão; a ilha de Icária, na Grécia; a Província de Ogliastra, na ilha da Sardenha (Itália); a cidade de Loma Linda, na Califórnia, EUA; e a Península de Nicoya, na Costa Rica (América Central).
Além das particularidades de cada região, os investigadores conseguiram detetar nove fatores comuns que contribuem para a longevidade das populações locais:
1. Mover-se de forma saudável - Não se trata de ir ao ginásio ou de correr a maratona, mas sim de viver em ambientes que promovem o movimento físico, como por exemplo cultivar uma horta ou ir a pé visitar um amigo.
2. Ter um propósito - A investigação mostrou que ter um propósito para se levantar de manhã pode acrescentar até sete anos à esperança de vida. Em todas as Zonas Azuis, as pessoas vivem em função de mais alguma coisa além do trabalho.
3. Abrandar - Adotar rotinas que diminuam o stresse porque, de acordo com os investigadores, este “conduz à inflamação crónica relacionada com todas as principais doenças resultantes da idade”.
4. Regra dos 80% - Parar de comer quando 80% do estômago estiver cheio. Os habitantes das Zonas Azuis guardam a refeição mais ligeira para o fim da tarde ou início da noite e não comem mais até ao final do dia.
5. Render-se aos vegetais - Os legumes e as leguminosas são o ponto central das dietas da maioria das pessoas centenárias. Só comem carne, em média, cinco vezes por mês e em doses de cerca de 100 gramas.
6. Bebidas - As pessoas de todas as Zonas Azuis bebem álcool de forma moderada e regular, normalmente um ou dois copos por dia com amigos e/ou a acompanhar a refeição.
7. Tribo certa – As redes de ligações sociais dos mais velhos influenciam de forma positiva os seus comportamentos saudáveis.
8. Comunidade - Participar em cerimónias de culto quatro vezes por mês acrescenta quatro a 14 anos à esperança de vida. Só cinco em 263 pessoas centenárias entrevistadas não pertencem a comunidades baseadas na fé.
9. Primeiro os que se ama - Durante a sua longa vida, estas pessoas colocam a família em primeiro lugar, mantendo por perto os pais ou os avós e dedicando tempo aos filhos.





Comentários