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Cientistas alertam que o aumento do consumo de alimentos ultra processados está a ameaçar a saúde pública mundial

Rede global de influência política dos grupos de interesse empresariais da indústria alimentar ultra processada. Os círculos maiores correspondem às empresas mais influentes
Rede global de influência política dos grupos de interesse empresariais da indústria alimentar ultra processada. Os círculos maiores correspondem às empresas mais influentes

As empresas que dominam o mercado global, como a Coca-Cola, Danone, Nestlé, PepsiCo e Unilever, produzem alimentos mais baratos, ricos em aditivos químicos, açúcares, gorduras e sal para reduzir os custos, apostando num marketing agressivo e em táticas políticas para bloquear regulamentações nacionais

 

VIRGÍLIO AZEVEDO

 


Nos últimos 30 anos, a contribuição energética dos produtos ultra processados para o total de compras de alimentos das famílias passou de 11% para 32% em Espanha, de 4% para 10% na China e de 10% para 23% no Brasil e no México, revela um estudo feito por 43 especialistas internacionais , publicado na revista científica britânica “The Lancet” (ver em https://www.thelancet.com/).

Nos países desenvolvidos, a percentagem destes alimentos na dieta está abaixo dos 25% em países do Sul da Europa como Portugal, Itália, Grécia e Chipre, bem como em países da Ásia como a Coreia do Sul e Taiwan, mas ultrapassa os 40% na Austrália e Canadá e os 50% no Reino Unido e EUA.


Obesidade, doenças cardiovasculares, diabetes, depressões e mortes prematuras

“Alimentos ultra processados e saúde humana: a tese principal e as evidências”, é o título deste estudo publicado em três artigos da “The Lancet”, que destaca associações significativas entre o consumo destes alimentos e problemas de saúde como a obesidade, doenças cardiovasculares, diabetes, depressões e morte prematuras. Um comunicado da revista defende que devem ser tomadas medidas políticas imediatas de saúde pública em todo o Mundo para reduzir a produção e o consumo destes alimentos e melhorar a dieta da população, promovendo o acesso a alimentos saudáveis e de baixo preço, porque a inversão desta tendência não pode depender apenas da mudança de comportamento dos consumidores. Assim, exige a aplicação de políticas nacionais para reduzir a produção, o marketing, o consumo e o elevado teor de aditivos químicos, gorduras, açúcares e sal da comida ultraprocessada. E para responsabilizar os grandes fabricantes como a Coca-Cola, Danone, Nestlé, PepsiCo ou Unilever pelo seu envolvimento na promoção de dietas que afetam a saúde da população.

O editorial da revista “The Lancet” sobre este estudo internacional destaca que “os alimentos ultra processados são agressivamente comercializados e concebidos para serem hiper palatáveis, impulsionando o consumo repetido e substituindo, muitas vezes, alimentos tradicionais ricos em nutrientes”. Por outro lado, não é só a saúde humana que é atingida, mas também a saúde do Planeta, porque “a produção industrial, o processamento e o transporte destes produtos depende intensivamente de combustíveis fósseis, e as embalagens plásticas são omnipresentes nos alimentos ultra processados”.   


Facilitar o acesso a alimentos frescos e saudáveis através do sistema fiscal

Os 43 autores dos artigos científicos, incluindo sete brasileiros, como Carlos Augusto Monteiro, da Universidade de São Paulo (ver em https://youtu.be/6U4q82Sb7Do) defendem, em particular, restrições de marketing mais rigorosas, em especial na publicidade destinada a crianças e nos meios digitais, e a proibição destes alimentos em escolas, hospitais e outras instituições públicas, bem como a imposição de limites às vendas e ao espaço ocupado por estes produtos nos supermercados. Por outro lado, as políticas públicas para facilitar o acesso a alimentos frescos e saudáveis poderia ser baseada no sistema fiscal, com o aumento da tributação dos produtos ultra processados e a canalização das receitas fiscais para promover o acesso das famílias mais pobres a alimentos saudáveis. 

As políticas públicas são muito importantes porque os grandes fabricantes usam diversos estratagemas para continuarem a aumentar os seus lucros, bloqueando regulamentações nacionais nos tribunais, influenciando os debates científicos e a opinião pública e fazendo “lobby” junto dos decisores políticos (ver infografia no início deste texto). Tudo porque os alimentos ultraprocessados são os mais lucrativos do mercado mundial.

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