top of page

Porque é que os palestinianos têm tantos filhos?

Atualizado: há 2 dias

A elevada taxa de natalidade é surpreendente, face à situação de instabilidade, violência e risco de vida permanentes que afetam a vida dos palestinianos na Faixa de Gaza e na Cisjordânia desde há várias décadas. Mas o estudo do Yin e do Yang pode ajudar-nos a entender esta contradição

 

VIRGÍLIO AZEVEDO

 

Raparigas numa escola em Gaza em 2018, antes da guerra
Raparigas numa escola em Gaza em 2018, antes da guerra

A história impressionante, contada há dois meses nos media, da pediatra palestiniana Alaa al-Najjar, de 35 anos, que perdeu nove dos seus dez filhos num bombardeamento israelita na Faixa de Gaza, leva-nos a uma pergunta inevitável: porque é que os palestinianos têm tantos filhos, apesar de viverem há décadas numa situação de instabilidade e risco de vida permanente?

Uma situação que se deve às guerras, deportações, repressão de manifestações, detenções em massa e prisões sem culpa formada por tempo indeterminado (mesmo de crianças), tortura e maus-tratos nas prisões, castigos coletivos (incluindo demolições de casas, recolher obrigatório, cortes no fornecimento de combustíveis, energia, água e alimentos, ou encerramento de universidades), deslocações forçadas, confisco de terras, taxa de desemprego superior a 50%, restrições à atividade empresarial e à liberdade de imprensa.

A verdade é que a população da Faixa de Gaza tem uma média de idade de 18 anos, isto é, está entre as mais jovens do Mundo. E 47% dos seus residentes são jovens até aos 17 anos.

Desde que começou a guerra entre o Hamas e Israel em Gaza, em outubro de 2023, já morreram mais de 58 mil pessoas, mas um estudo independente revelado pela revista científica “Nature” estima que, até janeiro de 2025, tenham perdido a vida 84 mil pessoas, sendo mais de 50% mulheres, crianças e idosos. Por outro lado, a UNICEF calcula que mais de 17 mil crianças morreram e 33 mil ficaram feridas desde o início do conflito em Gaza.


Guerra e Paz

Historicamente, nos países e regiões em guerra a taxa de natalidade diminuiu. E quando regressou a paz, o número de nascimentos disparou. Foi o que ocorreu em muitos países europeus depois da Segunda Guerra Mundial. Mas na Palestina tem acontecido precisamente o contrário.

E há ainda um segundo paradoxo. Como salientou à BBC Brasil o especialista no conflito israelo-árabe Michael Fischbach, professor de História no Randolph-Macon College (EUA), "noutros países do Mundo observamos uma relação direta entre a melhoria da educação e a queda dos nascimentos, e embora isso tenha acontecido em parte na Faixa de Gaza, a taxa de natalidade ainda é bastante alta".


Quatro pistas para uma explicação

Há estudos que apontam vários fatores para explicar a elevada natalidade entre os palestinianos:      

- O casamento precoce e o acesso restrito ao emprego formal para as mulheres.

- Uma forma de manterem e fortalecerem a sua presença na Palestina, perante os deslocamentos forçados e os conflitos permanentes.

- Valores culturais e religiosos que defendem famílias numerosas e a importância de manter a linhagem familiar.

- As crianças são uma fonte de resistência e uma forma de preservar a identidade e herança dos palestinianos, face à situação permanente de risco de vida.


O estudo do Yin e do Yang

Mas estas explicações são fragmentadas, falta-lhes um fio condutor comum, uma visão holística da realidade. E o estudo do Yin e do Yang, as duas forças opostas e complementares do Universo, pode ajudar-nos a criar esta visão.

De facto, todas as medidas relacionadas com os palestinianos que foram tomadas pelo Estado de Israel desde a sua fundação em 1948, há 77 anos, têm sido de natureza Yang. O exemplo mais expressivo são as retaliações muito desproporcionadas de Israel sempre que as organizações políticas palestinianas recorrem à luta armada, a atentados terroristas ou a protestos violentos em reação a essas medidas, porque Yang repele Yang.

Veja-se o que tem acontecido na Faixa de Gaza: o ataque surpresa do Hamas aos colonatos israelitas em outubro de 2023, que matou 1200 pessoas, a maioria civis, teve até agora como resposta das Forças de Defesa de Israel (FDI) a morte de pelo menos 58 mil palestinianos e a destruição de 17 hospitais. Por outro lado, segundo as Nações Unidas, mais de 90% dos edifícios residenciais em Gaza foram destruídos ou danificados.

E a retaliação dos israelitas continua, depois de quase dois anos de guerra. Assim, à força Yang do Hamas as FDI reagiram com mais força Yang, porque estão muito mais organizadas, dispõem de armas e equipamentos muito mais sofisticados e têm um exército mais forte: 175 mil soldados e 400 mil reservistas.


O famoso aperto de mão entre Israel e a Palestina

Historicamente, os palestinianos também têm usado a força Yin, ao reagirem com greves, protestos pacíficos, apelos à intervenção das Nações Unidas e da comunidade internacional. Houve mesmo o Processo de Paz de Oslo, na década de 1990, que levou israelitas e palestinianos a realizarem conversações diretas na capital da Noruega. O acordo de paz foi assinado em 1993 pelo primeiro-ministro de Israel de então, Yitzhak Rabin, e pelo presidente da Organização de Libertação da Palestina (OLP), Yasser Arafat, já falecido. E culminou com um evento muito mediático, saudado em todo o Mundo: o aperto de mão entre os dois líderes numa cerimónia pública em Washington, na presença do então presidente americano Bill Clinton. Depois, em 1995, foi assinado um segundo acordo.

No início, os Acordos de Oslo I e II tiveram um apoio generalizado tanto de israelitas como de palestinianos, mas, “apesar do otimismo inicial, em 2000 o processo de paz de Oslo desmorona-se quase por completo”, conta o historiador britânico Michael Scott-Baumann, no seu livro “A mais Breve História de Israel e da Palestina”.   

Mas voltemos à minha pergunta inicial: afinal porque é que os palestinianos têm tantos filhos? Para equilibrarem a grande carga de energia contrativa, muito Yang, que sentem no seu dia a dia, terrivelmente marcado pelo risco de vida permanente. Assim, a solução é criar mais vida e ter muitos filhos, é apostar numa energia expansiva, muito Yin.

Entretanto, descobri uma coincidência intrigante a nível da demografia: há 15 milhões de palestinianos e há 15 milhões de judeus em todo o Mundo. Cerca de 2/3 dos palestinianos vivem fora da Palestina e cerca de 2/3 dos israelitas vivem dentro de Israel. E esta, hein!?

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
Uma Alimentação Natural (2)

Tal como dissemos anteriormente, um dos pilares de Os Três Pilares do Bem-Estar é a Alimentação, sendo, a ideia subjacente, a de uma...

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page